AS PALAVRAS QUE NUNCA TE DIREI!
(escrito em 27-09-2026, antes da minha partida para Dublin)
Paula, finalmente conseguiste libertar do amor que eu tinha por ti, tenho escrito para ti no entanto, tu saberás, sempre foste e és necessária para a minha vida, a tua lembrança está tão aprisionada ao meu coração, como nos dias em que derramava através da minha escrita e que tu, talvez nunca tenhas lido. Sabes Paula, eu amo-te, como te amava; e amar-te-ei como te amo, o meu amor não tem tempo, término nem medida. Não teve um princípio fixo; e por isso não terá fim determinado, existindo enquanto eu existir e subsistirá eternamente, como a alma que não morre jamais. Se este amor que me tu me deste e que inspiras fosse um amor carnal, um amor como se sente por um familiar que nos fala ao coração; esse sentimento terreno e frágil como tudo que é da terra, acabaria com a duração do tempo. Porém, eu amo-te; com uma sensibilidade imensa, profunda e indestrutível, que é o sentir e a duração da minha alma; este amor, como existe ab eternum na mente divina. Eu espero-te, e tu virás? O coração não mo prognostica, contudo eu espero-te. Vem, meu tesouro... vem meu doce, vem! Tu a quem tanto amo... com o amor que te posso dar, sabes! gostava tanto de terminar com todas as amarguras que me apertam o coração, não vou consentir à minha alma, nem um renovo de alegria, nem um vislumbre de esperança, nem a sombra de prazer. Eu sofro, e quero sofrer sempre, por ti? Porque tenho castigo tão grande? Não sou mau, nunca prejudiquei ninguém, contudo, as ideias; confundem-se-me os pensamentos; eu não sei o que se passa comigo? Será que estou a ser sujeito a uma dolorosa estupidez, um assustador esquecimento? É demais, este sofrimento para um só coração. Eu não posso!... tu foste a minha salvação e a pessoa a quem me grudei neste mar tormentoso da minha vida, sempre agitado pela paixão única que tem sido o eterno sentir da minha alma, o amor!... tu!
Encontro-me mergulhado num oceano de dores sentindo-me a submergir. Eu perdoo-te, tal como Cristo perdoou aqueles que o crucificaram, eles não sabiam, o que faziam! sofro pelas dores que não podes deixar de me causar. Se soubesses? se pudesses ter num instante a consciência de todas as angústias que me tens causado; sofrerias muito também! Não saberás; não! não devo protestar, e não me protesto, não devo aprovar esse pouco alívio, que te custaria mais um sofrimento. Um dia, saberás talvez, no dia do supremo julgamento, estas dores, quando o espírito do mal lançar no prato da balança onde se pesaram as culpas, os sofrimentos que por ti me esmagam o coração. Deves escarnecer de mim!... dos meus sofrimentos... troças talvez da minha dor! É demais! Não quero ser ridicularizado, não quero!... quase diariamente, quando me levanto da cama, tu és o meu primeiro pensamento ansiando começar a escrever-te. Mesmo quando começo a trabalhar, o meu pensamento é teu! não sei que estranho sentimento me causa hoje a tua falta. Uma voluptuosidade amarga e embriagante toma conta da minha mente! Penso em ti com um calafrio do coração... imagens inflamadas atravessam o meu espírito, extasiam-me, fazendo-me ainda sofrer mais. Não sei que angústias de um desejo que me excita e faz surgir nas faces o sangue que me vem do coração, me perturba tanto! Desejava que estivesses ao meu lado, e estremeço violentamente com a ideia de que se agora, se estivesse ao teu lado, poderia tocar nas tuas lindas mãos. Neste mesmo momento, Paula, o fogo desse teu olhar incendeia-me como se realmente ele atravessasse o espaço entre nós!... Tenho febre! Sinto dores de cabeça: o meu sono foi agitado, e perturbado por sonhos... Meu Deus!... sonhos maléficos e muito estranhos. Sinto uma espécie de ferida em todo o meu ser; uma insensibilidade e uma inatividade ao mesmo tempo, e por intervalos, uma agitação febril e angustiosa!... Não me sinto bem; sofro; porém há alguma coisa neste sofrimento que eu não explico, mas que sinto, é amargo e atrativo ao mesmo tempo. Paula, tu não és estranha a estas minhas emoções; porque é o teu pensamento que as inspira. Os objetos que não tenham uma relação imediata contigo, o pensamento que não seja teu, não me comovem, e não me inspiram nada! Tudo que não sejas tu, acho frio, e deixa-me insensível, no entanto, tu encorajas-me e aumentas a minha alma não sei, uma impressão vaga de um prazer imenso e embriagante, jovem, no entanto, estas sensações novas, dão-me um brilho aos meus olhos! as minhas faces passaram a ter um colorido diferente; o meu sorriso tem não sei o quê, algo de misterioso... estranho-me! Isto é uma loucura; porém é verdade! tu Paula, és maravilhosa e bela!...
Não escrevo mais. Tenho receio que o que escrevi possa aumentar em ti, a tua repulsa pela minha pessoa, sabes bem que te poderia dizer muito mais, mas, fico por aqui Vou rezar pedir a proteção e o apoio divino. Vou trabalhar; vou ... vou procurar afogar estas lembranças... nem sei como chamar-lhes. Sinto um mal-estar inexplicável: a natureza, ressente-se dos males da alma, o meu corpo sente o impacto da luta que diariamente sofro no meu espírito. As dores do coração, os sofrimentos morais reagem com violência no meu corpo, e eu sofro fisicamente e espiritualmente. Não posso! É tão verdade, que sinto faltar-me o ar que respiro, e, aos meus olhos tudo assume uma forma letal e triste. Sinto um movimento de terror e inquietação, como se tivesse chegado à eternidade. Pergunto a mim mesmo; o que é a vida? e a morte o que será? que mistérios encerra a campa? Queria profundá-los, desejo penetrar nestes segredos. Compenetro-me relativamente à ideia da morte, e do que destruição pode inspirar, e sinto faltar-me a fé!... Será que tudo acabará assim?... não consigo vislumbrar a mortalha de amarguras que tem sido a mortalha de toda a felicidade? Renovar-se-ão ainda; estas dores, estas angústias que me torturam a alma sem um consolo de prazer? O que será para mim essa eternidade que a fé nos promete, e de que a desgraça real, em lutas me tem feito interrogar? Para lá da vida o que me espera? Despido do invólucro mortal que encerra como em prisão medonha, o meu espírito errará pela vastidão do espaço, ou irá repousar no seio imenso do Senhor que o lançou a este mundo como um sopro do Seu amor? A felicidade suprema ou o infortúnio? Mistérios!... Sempre mistérios! A dúvida! Sempre a dúvida e a incerteza!... Meu Deus! porque não pode ela amar-me?!... Que amargura encerra para mim a tua falta! sinto o coração frio desde que estas palavras caíram como uma amargura. O que eu sofri penetrou na alma com todos os horrores do inferno, não poderão meus lábios explicá-lo, porque o meu pensamento, o meu espírito não concebe uma frase sequer com que defina essa hora de suplício imenso, profundo como deve ser o da alma sepultada para sempre nos eternos abismos donde jamais se poderá sair. Meu Deus! o que fiz eu para sofrer tanto assim? Porquê, Senhor, esta crise que não suporto? Deveria eu amar essa mulher que se atravessou no meu caminho, apenas como um fantasma que distancia de mim a felicidade, e que depois na noite me aparecia como uma imagem gelada da morte das paixões, como uma condenação fria e positiva para a ardente aspiração, para a suave poesia da minha alma? O que é esta mulher para mim, que eu vejo através de um prisma letal como os meus pensamentos, surgir ante mim como uma punição e um castigo? Encontrá-lo eternamente na estrada que tenho de percorrer da vida à morte, será o meu destino? Eu tornei-me num desgraçado, Não posso amá-lo como ele me ama; e sou por isso condenada a amar-te, Paula, sem que tu possas amar-me, como és por mim amada! O que eu sofri quando esta horrível verdade se apresentou sem véus ao meu espírito. Só o poderá compreender quem também sofre todas estas dores. Naquele momento blasfemei!!... Sim; eu blasfemei do fundo da minha alma; neguei a justiça, a misericórdia, a sabedoria infinita! Parece-me, que no momento de suprema angústia, o anjo a quem foi confiada a guarda invisível da minha alma, fugiu assustado, e compadecido, não obstante as minhas torturas. Perdi tudo, Tudo!
Não devo mais reparações pelas dores que causei a esta mulher que teve a sina de me amar muito, com toda a sua alma. Sofro muito, agora, sinto-me só e triste. Estremeço porque não espero no futuro melhor destino. A mulher de ontem, hoje já não existe, porque o passado foi violentamente separado do presente. Um só golpe destruiu tudo, e quebrou a cadeia que prendia a minha existência, as minhas esperanças e as minhas recordações, que eram na minha alma, passado, presente e futuro. Tão só como o desterrado da pátria e dos entes que nela amava! Só no mundo!... Que desgraça! Peço, inutilmente, ao meu coração uma esperança... uma esperança!... Quando se chega aqui, atinge-se a meta da desgraça! Quem me dera chorar, quem me dera uma carícia que me fizesse transbordar em lágrimas este fel que me escalda o sangue e envenena a existência. Ninguém sabe o que eu sofro e como sofro!... Passou-me pelo espírito uma nuvem que o obscureceu, como seria deliciosa a loucura se ela me pudesse dar repouso e paz! A vida acaba quando morre o amor, a felicidade torna-se uma fantasia quando a esperança nos abandona; a fé passa a ser duvidosa. Estou numa condição de atormentada descrença. O desalento entornou-me na alma todo o veneno da dúvida. A destruição rodeou tudo. Creio que me não resta nada. Neste mar tempestuoso em que me debato, não encontro nem uma tábua de salvação a que me possa apegar. Não luto, não procuro salvar-me. Não luto ao furor das vagas que me empurram para o abismo, os restos desta vida que amaldiçoo. Deixo-me arrastar, e se volto a cabeça não vejo atrás de mim nada que me cause saudade, ou desejo de voltar e, se alongo uma vista curiosa não encontro nada que me faça desejar viver. Por onde passo deixo um sulco, um rasto negro e triste como a cadeia dos meus dias. Só. Estou só, e não sinto desejos nem esperanças de encontrar a companheira que nos meus sonhos eu acreditei que o Senhor me tinha prometido. Parece-me que tu, terias compaixão de mim se conseguisses ler no meu coração os sofrimentos que lhe impuseste! Não o saberás senão muito tarde. Pode ser que então me ames; porém eu não poderei amar-te. Já não estarei neste mundo!
O Senhor mostrou-te ao meu coração como uma visão de amor, num sonho de
febril ansiedade, vi-te só na terra, e condenada a sofreres todas as dores de alma
desolada e triste, que, eu podia consolar. Julguei-me predestinado: acreditei
ser o homem concebido para ti; e tu serias a mulher necessária à minha ventura.
Tu dormias cansada, aproximei-me de ti: falei-te na linguagem do meu coração, uma
linguagem ardente, celeste e pura como o sentimento que o enchia; colei os meus
lábios nos teus e repeti palavras de eterna vida, para o amor, para a
felicidade - compadeci-me de ti, e amei-te. Uni o meu coração ao teu, deixei-o
palpitar livremente com toda a energia da minha alma. Não me deixes, sofri o
infinito das dores da alma, não abandones ainda este cadáver sangrento, vítima de
um destino fatal. Ligaste a tua vida à minha, dedicaste-te a mim esperando a
minha redenção. A minha existência passar-se-ia ligada ao leito em que dormias
o sono profundo que te roubava ao amor e à vida. A troco dessa dedicação, dessa
generosidade, desse sacrifício o que te pedi?... Nada! Nada podias dar-me. Eu
queria unicamente que, se um dia o teu coração palpitasse e se um suspiro deslizasse
de teus lábios, poder devorá-lo com os meus sedentos de amor; e, esse olhar me abrasasse
deliciosamente num fogo de paixão. Que imenso sacrifício te não fiz! Quebrei
todos os laços que me prendiam à vida; desliguei-me de todas as obrigações;
esqueci todos os juramentos; separei-me violentamente de tudo, e dei-me a ti em
alma, espírito e coração; como me daria em corpo, se tu me amasses, ao passado
mandei um sorriso de desdém; um olhar de compaixão, assim ficaria a teu lado,
embora eu já não fosse para ti mais do que um cadáver gelado e frio, uma
eternidade de esperanças e angústias, se tu não respondesses a esse juramento
que o meu coração misteriosamente repetira sobre o teu, com uma palavra
tremenda e maldita, que saindo das profundezas da tua alma, abalou todas as
fibras da minha.
"Não posso amar-te" - disseste tu com medonha indiferença! Não
posso, repetiste com mais força, e o teu braço ergueu-se tremendo e ameaçador...
teus olhos fitaram-me por muito tempo como se quisesses convencer-me bem de que
me havias visto a luz da verdade! Já não te amo, Fernando, com o amor com que
te amei e que tu levianamente destruíste. Não me encanta já o pensar em ti! Não
recordo a tua lembrança como um amuleto que me livre da morte! Admiro-me de te
haver amado tanto!... tanto que a certeza de nunca ser por ti amado; me
destruiu toda a felicidade. Nada me deleita, nada me encanta. Evito o teu
pensamento com o mesmo ardor com que no passado o chamava, e me entregava toda
a ele. É que não há uma ideia risonha em que eu possa repousar deliciosamente para
fugir a esta realidade que me apavora. Não espero nada; não possuo nada; e não
lamento nada! Como está gelado e morto o meu coração! Apalpo-o para ver se ele
ainda palpita; pronuncio o teu nome, repito alguma das tuas palavras, que me
pareciam ser de eterna vida, mas ele permanece sossegado e frio! Que desgraça!
Quero à força fazê-lo reviver, pelo menos num instante, transportar-te ao meu
lado, sentimentos da própria existência para viver unicamente em ti; porém os
meus lábios sorriem com uma expressão de troça, agitando-se com movimentos de
impaciência! Não sofro acordando porque não consigo adormecer embalado por
essas tuas imagens, outrora tão embriagantes. O meu coração não se animou! Nem palpitou
de entusiasmo ou esperança! O pensamento de que eu ia ser elogiado não me fez
sair da medonha imobilidade em que estou sepultado!
Como, bebo, durmo; ando, passeio; porém não vivo, não sinto no coração, a vivacidade do meu espírito, quebrou-se tudo, quando me senti violentamente arremessado por ti, para este abismo em que se consumiria a vitalidade da matéria, que o meu sangue empresta aos membros e órgãos vitais de que se compõe este todo chamado corpo. Penso o menos que posso: ligo a atenção de que sou ainda suscetível, às coisas mais frívolas e mais insignificantes. Recordar é amar; e eu não amo nem a recordação do quanto te amei. Não gozo, nem sofro! Falo o menos que posso, e não penso! Sabes, este estado negativo é precisamente um suicídio. Os dias que se têm passado desde o último em que aqui escrevi, não sofro; desde que morri para o amor! Vida material; isolada, triste e monótona como deve ser a que vivem aqueles que tendo percorrido a larga escala da vida, se sentam no último marco da existência com o coração vazio de afetos, com a alma despida de aspirações e risonhas ilusões. Não há nada que me faça amar a vida; nada que ma torne atrativa e bela. Não amo, e não aborreço. Não sei se a minha alma poderá tornar a reanimar-se e a viver, esta parte do meu ser, que se animava e nutria só de afeto e sensações; não tenho a força da incredulidade. Não medito, nem penso sobre as coisas da vida; não busco o fio dos acontecimentos, nem procuro explicá-los com as causas ou efeitos que produzem ou originaram. Aceito tudo das mãos do acaso, na morte natural do homem nos fenómenos da natureza. Tenho dificuldades entre aquilo que escrevo e a o que sinto. Morto a todo os sentimentos, a todos os afetos, a minha alma produz sozinha; sem violência e sem angústias, o supremo desalento em que foi lançada. Hoje, encontro-me mergulhado num estado de absoluta nulidade, de estupidez e esquecimento. Não foi dor, nem sofrimento, o que senti, foi a cessação da vida!
Queria escrever muito mais, mas estou a ficar cansado e quanto maior o texto mais difícil, desinteressante e cansativa se torna a leitura!

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