QUERO SER VELHO!

 



Não suporto quando transformamos o significado das palavras, simplesmente detesto quando alguém se refere a outra pessoa como idoso em vez de velho. Por acaso pensarão que se ser idoso é melhor que ser-se velho? Ser velho é uma conquista é uma fama das memórias aglomeradas provando que mesmo velhos conseguimos aborrecer os outros com as nossas ideias. Por isso declaro agora, aqui que no dia em que me mencionarem como idoso, juro que irei sentir que todas as minhas aquisições me serão roubadas, à medida que o tempo prossegue, eu tenho a convicção de que estou mais perto da morte, não é que isso me angustie dado que cresci sempre entendendo a morte como algo inevitável.

Parafraseando Fernando Pessoa "a morte não é o contrário da vida. A morte é o contrário do nascimento" Ele tinha toda a razão a vida não tem inversos. A morte é algo que nos segue desde o nascimento e quanto mais velhos ficamos mais perto dela estamos. 

Voltando aos velhos… Não me angustia nada ser velho. Tenho muitas coisas interessantes para contar e ensinar às minhas netinhas queridas e, também a quem estiver interessado em as ouvir e aprender. Ser velho é uma conquista por isso rejeito a palavra idoso que é uma completa rendição. Eu posso ser velho sem nunca ser idoso porque envelheço com dignidade, levando aos outros, alegria, saber, recordações de tudo o que conquistei, aprendi e vivi.

Um idoso limita-se a estar ali frente à televisão a ver coisas que nem entende com as pernas enroladas numa manta e umas pantufas calçadas. Usa fraldas a fim de evitar que possa sujar o sofá. 

Os idosos têm o hábito de colocar o cotovelo em cima da mesa a mão na testa e ficar ali a suspirar e a chorar memórias passadas. O velho pensa que a experiência da vida é um trampolim para poder fazer o que ele deseja neste momento antes que seja tarde. Um idoso morre porque desiste, mas o velho morre porque faz tudo o que gosta de fazer até ao último suspiro.

Conhecem aquele texto penso que é do Guimarães Rosa, “Havia uma aldeia num lugar, com velhos e velhas, homens e mulheres que esperavam, e meninos e meninas que nasciam e cresciam (gostava de comprar este livro de contos para a minha neta Daniela, tenho a certeza que iria adorar). 

Também eu quero viver numa aldeia como a que acabei de narrar em que como velhos vamos realizando, desejar que fiquemos menos vaidosos e mais divertidos mesmo que outros nos apontem como sendo ridículos, rir nem que para isso precisemos de nos apoiar uns nos outros. 

Nunca irei permitir que me roubem a noção de ser velho. Quem quer voltar a usar fralda e a ser repreendido por alguém que ainda nem metade da vida viveu? Tenho a perfeita consciência que o tempo deixa bem claro em cada pedacinho da pele que eu estou a ficar cada vez mais velho, mas acreditem eu NÃO ME IMPORTO DE SER VELHO porque no dia em que a vida achar que eu já vivi o suficiente sairei como entrei… Com um sorriso nos lábios e dizendo-te ao ouvido que sempre te amei e continuo a amar muito gatinha!






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